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Friday, September 15, 2006

todos queremos deuses

voaria sim, como um anjo, talvez, não modificaria a paisagem, sobre aqueles secos ramos desfigurados do deserto, voaria sim, como um pássaro antigo, com os mesmos ferros de seus traços, o deus que queríamos ser, voaríamos em busca de zeus onde estivesse a magia de moldar os homens à sua imagem e semelhança.

na encosta da acrópole, todos os séculos reunidos nos extremos, o rosto fictício e posto em busto sobre os caminhos de todas as cidades, como as pedras de Roma e Grécia, o corpúsculo dos feitos heróicos de seus exércitos e de seus deuses.

erguidos sobre a silenciosa cúpula, os elmos dos gladiadores mortos em batalha, a divertida cena, inóspita batalha sobre as arenas.

o caos que resta nos cemitérios do mundo estão invadindo as ruas em fórmulas secretas de ideologias, sepulcros de palavras sob e sobre, sob e sobre os muros vencidos.

as bigas sobre o asfalto, entediadas dos engarrafamentos, os leões soltos, o templo aberto, a fome das platéias, o sorrisos do políticos acenam para os deuses, a violência da cabeça cortada, o ciúme dos vencidos, a casa da loucura, o labirinto, o poder.

todos queremos deuses. precisamos de suas máscaras para esconder-nos de nossas torturas, aliviarmos a dor do infinito, para eternizarmo-nos diante da desilusão.

todos queremos deuses.

Tuesday, September 12, 2006

Horizonte silencioso



Não conheci Maria Lúcia Medeiros, nunca fomos apresentadas, e se fomos, no máximo, o mínimo de amigas, apenas o laço de escribas, um olhar pelo lado numa das feiras de livros, mandei alguém entregar-lhe um livro meu, ela agradeceu longinquamente, mais algo comum que tínhamos, a timidez, maldita timidez, jamais fomos apresentadas, jamais tive coragem de dar um passo qualquer ou dar-lhe um sorriso.

Mas ganhei de presente “Horizonte silencioso” de aniversário, e no mesmo dia li, encontro raro este, pude sentir a profundidade de seu trabalho, no dia em que a vi, gostaria de ter conversado sobre ele, sobre seus personagens, sobre sua vida, sobre seu lirismo maduro, sua maneira silenciosa de sentir as coisas, numa quase sutil definição de intimidade com as minúcias, um quase passado na memória, frias noites, dias quentes, tranqüilidade, a felicidade impressa em papéis guardados.

Mas não consegui, “o medo de morrer fazia-lhe procurar a mãe, mirá-la enquanto ela varria as folhas secas do quintal, beber-lhe o espírito calmo, tolerante, armazenar serenidade para atravessar as dificuldades”, parece-me sempre que Maria Lúcia fora calma em sua vida, uma impressão que não me abandonará nunca, talvez tenha lido apenas uma impressão, talvez queira buscar algo mais além do que posso, por não tê-la conhecido, recortes de seus recortes, retratos de suas imagens recolhidas daquele dia em que quase a interceptei com minha curiosidade, vontade tardia que o tempo implacável apagará, mas sua magia não, suas palavras estarão além desse instante estúpido em que não arrisquei, um horizonte silencioso feito de destino.

Agora vejo que minhas palavras estão frias, porque perdemos alguém muito importante, “tua noite inacessível. Teus braços abertos”, “...e assim olhavas pela derradeira vez as portas do Paraíso e então sonhavas...” . para Maria Lúcia, onde estiver,

Josette Lassance
Viajar quase sempre nos traz à tona nossos melhores desejos enterrados

Acordar tendo a insônia como referencial teórico para um dia de possíveis ameaças do ofício, nos traz a cena de uma tumultuada tempestade. Mas na quinta-feira tudo acordou normal, o céu liso de idéias, sem a tela do computador naquele tom azul do protetor de tela. Acordar, sim, mas para viajar, numa estrada ainda crua porque apesar do asfalto novo, alguns deslizes advindos sabe-se lá, se das chuvas ou da fragmentação devido à sua superficialidade, ou do uso freqüente de seus longos percursos entre carros pesados e carros de passeio. A estrada trouxe barulho ao atrito dos pneus do carro em que me encontrava. E de encontrão mesmo veio a paisagem meio estéreo da região, apesar do verão bombando, cenas de igarapés mortos por uma superfície embarreada, dificuldades da vida, igarapés enterrados ao longo das vias, mão e contramão, igarapés mortos por ausências de tubulações que viabilizassem sua correnteza. Mas tudo bem, a estrada serviu e ainda está servindo de lazer e trabalho (apesar de indícios de deterioração), porque facilitou a vida de alguns, abrindo espaço de lazer a outros, enfim, nem tudo é perfeito.

Cheguei à tona numa cidade à beira do rio. Calor abafado, bicicletas, motocicletas, carros, pessoas, pós-círio, um movimento tumultuado com ânsia de votos, circulando atormentados fluxos na beira do cais. Peixe, lama, carne de capivara salgada, panelas e galinhas sujas de excremento, quase mortas num paneiro, castigadas pela seca, aguardavam sem ternura alguém comprá-las, misturadas às vendas de sandálias de borracha, alho poró, tomates, patos engaiolados e redes bordadas.

Passando esse ritual de ir à feira, os preços convidativos e iguarias deliciosas como o mingal de miriti e de açaí, formávamos um grupo pequeno de quatro pessoas, e mais um senhor que nos levaria aos furos e às casas dos ribeirinhos.

Subimos na embarcação típica da região, uma espécie de lancha meio barco, criativamente apelidada de “rabeta”, uma delícia de velocidade, uma delícia de viagem, uma delícia de primitiva sensação de libertar-se daquele emaranhado de pedaço de cidade. Lá, o rio largo, corpulento trazia em sua margem uma selvagem vegetação, entre açaís, jambeiros, miritizeiros e árvores que eu desconhecia, mas que traziam em suas extremidades uma quantidade exuberante de ninhos de japiins.

A maré ainda não se completara em seu ciclo de enchente, entretanto, a beleza líquida esvaziaria meu olhar das estradas de asfalto quente e me jogariam seu frescor alinhavado com a beleza de costurar-se entre os caules das árvores. Um paraíso ainda não perdido, tão próximo ainda de nossas próximas viagens…

Ouvi então um ronco ensurdecedor, ao pararmos em nossa primeira casa de visita. Era o ronco vazio de uma desesperada serra elétrica matando os espécimes próximos ao furo. Perguntei ao homem que nos guiava rio acima, o porquê dessa devastação tão intensa em um lugar que juraria não existir necessidade de corte, visto que não havia árvores ou serrarias, gado, ou plantação de qualquer outra serventia.

Respondeu-me subitamente que era para abrigar uma criação de búfalos, e a terra era de um empresário de setenta anos que além de lidar com outros inúmeros empreendimentos, estaria ali para derrubar açaizeiros, árvores de mangue e outras mais árvores que pudessem atrapalhar seu caminho.

Na outra margem, a casa de madeira, o cachorro vira-lata e uma família inteira nos esperavam para nos contar com detalhes, de seus planos auto-sustentáveis, incorporando sua criação de peixes, sua plantação quase silvestre de açaís, de mandioca, seu apiário, sua criação de porcos, patos e galinhas, entre outras coisas mais, suas reivindicações devidamente organizadas e seus projetos juntamente com os governos, de manter a quase integridade de sua harmonia com sua natureza ribeirinha.

Ou seja, esse homem, acostumado à sua essência de pescador, coletor, já consegue, felizmente possuir, não totalmente, pois ainda faltam alguns pontos para melhorar, porque ainda pude perceber latas vazias entre pets e tubos de creme dental jogados no rio. Mas ainda que tenha a construir o que falta em sua consciência, ele, o homem ribeirinho está no caminho certo.

Depois visitamos mais casas e mais casas. Cada uma delas com sua peculiaridade, mas todas com um sorriso aberto para nos receber. O banho de rio aliviou o calor, um tronco de miriti amarrado a alguns paus serviam de cais para as embarcações, em sua maioria eram “rabetas” e quase sempre ao lado de cada uma delas, um “casquinho”, uma espécie de canoa em miniatura, fazia parte das inúmeras formas de locomoção, estas mais apropriadas para percursos mais curtos.

No ar havia uma atmosfera de silêncio, enquanto uma andorinha com as asas azuladas cortava a paisagem, após deixar seus filhotes em sua casinha de madeira. Uma casinha desenhada pelo homem, recortada de madeira e pendurada na árvore. Na mesma árvore, uma placa para que não jogassem lixo no rio.

Na sala de uma casa, ao entrar, vi uma gaiola de miriti, minúscula, abrigava um pássaro “brabo”, assim definiria mais tarde um pescador dono do pássaro, um desespero olhar para aquelas asas machucadas e aqueles vôos quebrados. Parecia não ir a lugar nenhum, atravessar o nada, para cantar?

Almoçamos depois de um longo percurso, uma sarda assada e depois fomos conhecer a “usina” que beneficiaria o açaí e serviria de energia, em mais um projeto com o governo. Esses ribeirinhos trabalhavam num alambique, desativado após algum tempo por motivos desconhecidos, mas o que importa é que ninguém desistiu de sobreviver.

As crianças na escola, as mulheres ao lado de seus homens, conseguiram estabelecer organizadamente suas tarefas e tocar a vida, mas sem deixar de prazerosamente compartilhar de seus momentos mais felizes.


josette lassance
setembro, 2006